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Pensar "latino-americanamente" os algoritmos e as plataformas:
as contribuições de Jesús Martín-Barbero

Pensar "latinoamericanamente" los algoritmos y las plataformas:
las contribuciones de Jesús Martín-Barbero

Thinking in a Latin American way About Algorithms and Platforms:
The Contributions of Jesús Martín-Barbero




Ana Carolina Damboriarena Escosteguy 1
Ana Julia de Freitas Carrijo 2

1 0000-0002-0361-6404. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
ana.escosteguy@ufrgs.br

2 0000-0001-8372-1003. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil.
anajucarrijo@gmail.com


Recebido: 25/11/2024
Submetido a pares: 23/01/2025
Aceito por pares: 17/03/2025
Aprovado: 26/03/2025


Para citar este artículo / to reference this article / para citar este artigo: Escosteguy, A. C. D. e Carrijo, A. J. F. (2025). Pensar "latino-americanamente" os algoritmos e as plataformas: as contribuições de Jesús Martín-Barbero. Palabra Clave, 28(2), e2828. https://doi.org/10.5294/pacla.2025.28.2.8



Resumo

Neste artigo, retomamos as contribuições de Jesús Martín-Barbero sobre o entorno tecnocomunicativo, a problemática do popular e a mediação da tecnicidade, enquanto "fermento" para a pesquisa contemporânea sobre algoritmos e plataformas na América Latina. A partir de uma análise qualitativa da literatura, identificamos potencialidades e limites dessa abordagem para a análise das práticas com algoritmos no cotidiano. Concluímos que é urgente construir uma ponte entre pesquisas com esse enfoque e teorizações de caráter macroestrutural, que densificam conceitualmente o entorno tecnocomunicativo contemporâneo. Esse diálogo entre teorias requer descentralizar os pensamentos europeus e norte-americanos, partindo de saberes locais para produzir conhecimento contextualizado.

Palavras-chave: América Latina; teoria; algoritmos; plataformas; práticas; cotidiano.


Resumen

Retomamos las contribuciones de Jesús Martín-Barbero sobre el entorno tecnocomunicativo, la problemática de lo popular y la mediación de la tecnicidad, como catalizador para la investigación contemporánea sobre algoritmos y plataformas en América Latina. Por medio de un análisis cualitativo de la literatura, identificamos potencialidades y límites de este enfoque para analizar las prácticas con algoritmos en la vida cotidiana. Concluimos que es urgente construir un puente entre investigaciones con este enfoque y teorías de carácter macroestructural que densifican conceptualmente el entorno tecnocomunicativo contemporáneo. Este diálogo entre teorías requiere descentralizar pensamientos europeos y norteamericanos, partiendo de saberes locales para producir conocimiento contextualizado.

Palabras clave: América Latina; teoría; algoritmos; plataformas; prácticas; vida cotidiana.


Abstract

This article revisits Jesús Martín-Barberos contributions on the technocommunicative environment, the issues of popular culture, and the mediation oftechnicity as a catalyst for contemporary research on algorithms and platforms in Latin America. Based on a qualitative literature analysis, we identify the potential and limitations of this approach in analyzing everyday algorithmic practices. We conclude that there is an urgent need to build a bridge between studies with this perspective and macrostructuraltheories, which conceptually enrich the contemporary technocommunicative environment. This dialogue between theoretical frameworks requires the decentralization of European and North American thought, beginning instead with local forms of knowledge to produce contextually grounded understanding.

Keywords: Latin America; theory; algorithms; platforms; practices; everyday life.


Introdução

A pesquisa em comunicação na América Latina ainda sofre, até hoje, as consequências de seu forte vínculo de origem com o pensamento norteamericano e europeu. Com a última virada de século, no bojo de um movimento de enfrentamento da lógica colonial no âmbito da produção do conhecimento, vem crescendo o esforço de validação de autorias latinoamericanas, promovendo uma incipiente pluralização de fontes intelectuais no campo. Antes dessa movimentação, o interesse em estudar a comunicação a partir de suas mediações históricas e socioculturais já tinha transladado o foco para a recepção e usos da mídia, entendendo-os como lugares estratégicos para situar a pesquisa. Juntamente com esse deslocamento conceitual, emergiram o questionamento de premissas fundacionais europeias e norte-americanas e a emergência de uma reflexão comunicacional propriamente latino-americana. No entanto, isso se deu fundamentalmente em um nicho de investigação na área: os estudos de recepção.

Na tentativa de romper fronteiras internas ao campo e resgatar as contribuições teóricas provenientes de um pensamento que tomou como ponto de partida primordial compreender o processo de comunicação "em situação" (Torrico, 2017, p. 175), ou melhor, a partir da situação latinoamericana, exploramos as ideias de Jesús Martín-Barbero, especificamente sobre entorno tecnocomunicativo, problemática do popular e mediação da tecnicidade, enquanto "fermento"1 para os estudos contemporâneos que envolvem algoritmos e plataformas na América Latina.

Demarcado o propósito, o que segue se estrutura em quatro partes. Na primeira, explicitamos as premissas teóricas e os procedimentos metodológicos que regem este trabalho. A segunda retoma as três chaves conceituais, anteriormente citadas, de Martín-Barbero, incorporando a discussão proposta por Siles et al. (2024) a respeito do popular, o que, conjuntamente, compreendemos como o fermento para a investigação sobre algoritmos e plataformas. A terceira seção está dirigida à indicação de pesquisas brasileiras que fizeram uso da mediação "tecnicidade" no estudo de objetos relacionados às tecnologias digitais de comunicação. E, por fim, anunciamos as pontes necessárias na contemporaneidade para dar conta do núcleo motivador da proposta de Martín-Barbero: as articulações entre comunicação, cultura e política.

Premissas teóricas e procedimentos adotados

Dentro de um arco de possibilidades teórico-metodológicas concernentes aos estudos sobre algoritmos e plataformas, consideramos que o resgate proposto se apresenta como uma abordagem específica dentro dessa ampla área de investigação2, qual seja: a pesquisa sobre práticas cotidianas com os sistemas algorítmicos em plataformas digitais. Portanto, o interesse não está delimitado nos algoritmos nem nas plataformas em si, mas nos processos de uso e apropriação dessas tecnologias.

Vale lembrar que plataformas são "infraestruturas digitais (reprogramáveis que facilitam e moldam interações personalizadas entre usuários finais e complementadores, organizadas por meio de coleta sistemática, processamento algorítmico, monetização e circulação de dados" (Poell et al., 2020). No cotidiano, reconhecemos as plataformas nos aplicativos, como Instagram, TikTok, Uber, AirBnB, os quais pertencem a grandes empresas de tecnologia (Big Techs), responsáveis por operacionalizar interações on-line e acessos a conteúdos e serviços.

Essas plataformas são organizadas por sistemas algorítmicos, que, em termos computacionais, são fórmulas processuais, expressas em códigos de programação, que indicam para máquinas um passo a passo a fim de realizar uma determinada tarefa (Cormen, 2013). Nosso interesse está relacionado a um tipo específico de algoritmo, os algoritmos de recomendação, que utilizam os dados de navegação dos usuários como base para identificar padrões de consumo e prever que tipos de conteúdo são mais ou menos relevantes para cada usuário (Gillespie, 2018). Eles realizam uma espécie de curadoria, que organiza a grandiosa quantidade de conteúdos disponíveis nas plataformas e direciona-os para cada usuário por meio de um ranqueamento das publicações e da oferta de recomendações de conteúdos personalizados, considerando os padrões de consumo identificados.

Levamos em conta tais definições; contudo, o foco da perspectiva que recém identificamos está na experiência social com os algoritmos de plataformas digitais. Por essa via, há uma expansão desses conceitos, considerando algoritmos e plataformas como construções sociais. Estamos de acordo com Ricaurte (2022) em reconhecer essas tecnologias não como dispositivos tecnológicos, mas como um conjunto complexo de sistemas sociotécnicos. Para a autora, os algoritmos são "um conjunto de processos epistêmicos, culturais e sociais que transformam e reconfiguram as relações entre sujeitos, sujeitos e objetos, e entre os próprios objetos" (p. 732, tradução nossa 3). Por isso, mais do que compreender as lógicas internas dos algoritmos e seus códigos de programação, interessamo-nos especialmente por reconhecer os sentidos que circulam socialmente sobre tais sistemas e as práticas experimentadas pelos usuários.

Em nosso entender, a ideia de experiência vincula-se à reformulação da noção de popular4, proposta por Martín-Barbero. Em Dos meios às mediações (1987), o autor refaz o trajeto do conceito de povo, recuperando diversos autores e visões. Ao final dessa genealogia, constrói sua posição que, em síntese, tem duas dimensões. Uma delas diz respeito à ideia de que o popular somente tem sentido se for pensado na sua "imbricação conflitiva no massivo" (p. 248), abandonando uma compreensão do estrato cultural popular como algo autêntico e incontaminado por outras dinâmicas. E a outra, que mais nos interessa aqui, refere-se à compreensão do popular como um espaço de práticas na vida cotidiana, isto é, "espaço de uma criação muda e coletiva" (p. 94).

Graças à problematização do espaço popular, é possível observar a adesão a um princípio democratizante na concepção de cultura. Isto é, nesse entendimento, passam a estar incluídos tanto novos registros e expressões simbólicas quanto novas sensibilidades cotidianas que, em outros discernimentos, tinham sido desprezadas. Essa postura inclusiva, de sujeitos e subjetividades populares, expressa em uma concepção de cultura, tem forte cunho político, sendo ineludível sua vinculação com a tradição dos estudos culturais, âmbito em que também situamos nossa reflexão.

Em termos de procedimentos metodológicos, a proposta de análise de literatura empenhada aqui segue pistas lançadas por Torraco (2016) e Ribeiro (2014) e combina premissas da revisão integrativa com as da modalidade narrativa. Assim, reunimos literatura empírica e teórica, proveniente de diferentes métodos (revisão integrativa), adotando uma análise qualitativa e crítica da documentação selecionada, sem aplicar estratégias de busca normatizadas e exaustivas (revisão narrativa). Como consequência, os procedimentos empregados não são matematizados, não permitem a reprodução dos dados nem produzem levantamentos quantitativos acerca da produção analisada. Trata-se de um tipo de revisão e análise mais aberta e qualitativa, embora igualmente rigorosa, útil e metódica, largamente re­conhecida em diversas disciplinas (Ribeiro, 2014).

Assumimos, como primeira orientação, a obrigatoriedade da explicitação dos objetivos e pontos de partida da autoria, conforme indicado por Torraco (2016). Considerando que o ponto de partida já foi explicitado, o propósito é identificar as potencialidades e os limites das três chaves conceituais — o popular, o entorno tecnocomunicativo e a tecnicidade — para a pesquisa latino-americana sobre práticas cotidianas com algoritmos. Além disso, à maneira de uma revisão integrativa (Ribeiro, 2014), este trabalho busca combinar essa revisão teórica das três chaves conceituais com uma seleção intencional de fontes, baseadas principalmente em pesquisa empírica nacional (brasileira).

Ainda, de modo geral, adotamos uma disposição decolonial5, reclamando o reconhecimento de contribuições teóricas originárias da América Latina — principalmente as de Martín-Barbero. Nosso esforço se dá em sintonia com um reservatório acumulado de heranças teóricas, situadas, e um ponto de vista conectado às realidades locais estudadas, dando continuidade a trabalhos anteriores (Carrijo e Escosteguy, 2023, 2024).

No entanto, a orientação decolonial assumida não tem filiação estrita a uma perspectiva teórica específica, bem como não descarta insumos intelectuais que se originam no Norte global. Por isso, ao tratarmos sobretudo dos limites nas chaves conceituais de Martín-Barbero, construímos pontes entre projetos intelectuais provenientes ora do Sul, ora do Norte, almejando apresentar uma proposta integrativa. Entretanto, esse diálogo entre teorias requer descentralizar os pensamentos críticos europeus e norte-americanos, partindo de saberes locais para produzir conhecimento sobre práticas contextualizadas com algoritmos e plataformas digitais.

Fermento para a pesquisa latino-americana sobre algoritmos e plataformas

A produção intelectual de Jesús Martín-Barbero (1937-2021) é largamente reconhecida como uma "teoria barberiana da comunicação" (Lopes, 2018) e como um "pensar latino-americanamente a comunicação" (Torrico, 2017). Aqui, propomos extrair de sua obra três ideias-chave: o entorno tecnocomunicativo, a tecnicidade e o popular, articulando-as e combinando-as para "fermentar" a pesquisa empírica latino-americana sobre plataformas e algoritmos.

Essa operação está alinhada ao entendimento de que sua teoria pode ser usada na investigação de outros objetos que não os usuais (televisão e telenovela), bem como oferece possibilidades de exercitar articulações e combinações entre os diversos mapas6, já que estes não são nem sequenciais nem substituíveis entre si. Isso segue duas orientações de Lopes (2014). A primeira, de caráter mais abrangente, sugere que "é possível operacionalizar a análise de qualquer fenómeno social que relacione comunicação, cultura e política" (Lopes, 2014, p. 71). Já a segunda, restrita ao uso dos mapas na pesquisa empírica e, portanto, referente à estratégia metodológica, indica que "a escolha pode recair em determinadas mediações, e não em outras, dependendo do destaque que ganham na abordagem analítica" (p. 75).

Do mapa que reivindica a investigação das mutações culturais contemporâneas, extraímos o que foi denominado por Martín-Barbero (Moura, 2009) de "entorno tecnocomunicativo". Essa ideia, embora pouco explorada nos seus textos, indica que o centro das mudanças da sociedade contemporânea está situado no papel das tecnologias de comunicação, que passam a configurar um novo ecossistema comunicativo. Em termos analíticos, diz respeito à concretização da racionalidade de uma cultura e de um "modelo global de organização do poder", incrustado na estrutura social.

No contexto contemporâneo, o autor analisa as mutações culturais que engendram tal entorno enfatizando como as reconfigurações sociais desenvolvidas com as tecnologias atravessam os modos de habitar a experiência social, tornando-a mais "digital, fluída, hipertextual, caótica" (Martín-Barbero e Rincón, 2019, p. 17, tradução nossa). Ele sinaliza esferas específicas em que tais mutações são evidentes, como o protagonismo assumido pelas juventudes, as lutas das mulheres e o florescimento de identidades diversas. Porém, seguindo seu ofício de cartógrafo, sobrevoa a realidade contemporânea criando mapas e identificando mudanças abrangentes desse novo entorno.

No exercício de esmiuçá-las, a chave nos parece estar no reconhecimento de que a conjuntura social está fundamentalmente baseada em uma estrutura de fluxos e redes, própria do digital, que mobiliza a coexistência de tempos e espaços diferentes, com toda a infraestrutura necessária para tanto, a partir de preceitos do capitalismo financeiro e do entretenimento expandido (Martín-Barbero e Rincón, 2019). Assim, se pousamos do sobrevoo, reconhecemos que a atual concentração de poder político, económico e técnico nas grandes empresas de tecnologia, detentoras de plataformas populares na maior parte do mundo, é elemento primordial para o entendimento do entorno contemporâneo.

A teorização barberiana não menciona, nesses termos, aspectos da plataformização, da datificação, do colonialismo de dados, nem as especificidades da personalização algorítmica. Contudo, identifica um contexto de "otimismo tecnológico" como constitutivo das mutações (Martín-Barbero e Rincón, 2019, p. 19) e aponta os fluxos digitais como caracterizadores não apenas da lógica interna da internet, mas também do próprio entendimento do social. Por exemplo, o autor aborda a proliferação de narrativas e relatos de figuras com poder de enunciação e performance, o que temos visto se tornar um fenómeno cada vez mais evidente (como nos chamados "influenciadores digitais", nas estratégias políticas e eleitorais fundidas às dinâmicas dos sites e aplicativos de redes sociais, e ainda nas produções publicitárias em que marcas ocupam espaços de autoridade em seus nichos etc.). Nessa dinâmica, os regimes de visibilidade e relevância (Gillespie, 2018), que chancelam o referido poder de enunciação a essas figuras, não podem ser desvinculados dos algoritmos que operacionalizam sua circulação.

Apesar da centralidade que tais tecnologias específicas ocupam na atualidade, e que o próprio Martín-Barbero (2004) atribui à tecnologia de forma geral, sua reflexão não adere ao princípio de que a vida social é modelada pelas tecnologias que a constituem. Assim, mesmo com o refinamento das tecnologias contemporâneas, com processos de inteligência artificial e aprendizado de máquina, consideramos coerente com o pensamento barberiano reiterar que as tecnologias são intrinsecamente sociais, conferindo relevância simultânea ao protagonismo dos sujeitos e dos algoritmos.

Nesse sentido, a tecnicidade, um dos operadores teórico-metodológicos propostos pelo autor para abordar questões dessa ordem, ganha maior densidade no contexto de mutações, adquirindo um caráter cada vez mais estruturante nas proposições teórico-metodológicas barberianas (Pieniz e Cenci, 2019; Girardi Jr, 2018; Brignol, 2018; Jacks e Schmitz, 2018).

Martín-Barbero (2004) apresenta a tecnicidade como operador teórico-metodológico que se ocupa de dimensões vinculadas à experiência e às habilidades desenvolvidas na prática pelos sujeitos em contato com as tecnologias (Martín-Barbero e Rincón, 2019). É nesse âmbito que novamente  repercute a reformulação proposta sobre o popular. Nas palavras de Martín-Barbero (1987): "popular é o nome para uma gama de práticas inseridas na modalidade industrial, ou melhor, o 'lugar' a partir do qual devem ser vistas para se desentranharem suas táticas" (p. 94). A capacidade "tática" atribuída aos setores populares é creditada à Michel De Certeau. Contudo, na sequência de seu trabalho intelectual, Martín-Barbero matiza a valorização da capacidade criativa coletiva.

De toda forma, a tecnicidade é uma mediação que engloba as ino­vações nas práticas cotidianas com as tecnologias de comunicação, considerando as "competências de linguagem" (Martín-Barbero, 2004, p. 235) utilizadas, sobretudo, no que é posto em circulação por essas mesmas tecnologias. Nesse sentido, ela extrapola a instrumentalidade da técnica e abrange os caminhos acionados pelos sujeitos para ver e explicar o mundo, construindo narrativas sobre a experiência social com as tecnologias, imersas na conjuntura cotidiana.

Siles et al. (2024) retomam essa abordagem, desconsiderada por determinadas perspectivas centradas nos processos de datificação, por meio da incorporação da discussão sobre o popular em Martín-Barbero. Por essa via, os autores propõem quatro dimensões do popular para o estudo de algoritmos. As práticas culturais lúdicas, que dão conta das relações cotidianas, corporificadas e contextuais vivenciadas pelas pessoas com os algoritmos. A imaginação, que está relacionada com a possibilidade de agir e transformar o mundo, isto é, com os imaginários das pessoas e como esses pensamentos podem orientar práticas e ações com os algoritmos no dia a dia. Assim, ela é um exercício especulativo e empírico de atribuir sentidos às tecnologias, bem como aos algoritmos. Isso quer dizer que não existe uma única forma de compreender o que eles são e é na experiência prática que as expectativas e suposições sobre esses sistemas tomam forma.

Dessa relação, emergem práticas de resistência aos algoritmos que compõem a terceira dimensão proposta pelos autores. Tais ações vão de encontro às estruturas de dominação dos algoritmos; portanto, são criadas táticas para "atrapalhar" ou "confundir" os algoritmos em movimentos emancipatórios.

Por fim, a quarta dimensão do popular que baliza a proposição dos autores refere-se ao binómio "sedução e resistência", amplamente debatida em Dos meios às mediações, sendo nomeada como "in-betweenness"7. Trata-se de uma expressão que ilustra a posição ambivalente ocupada pelos sujeitos nas relações com as tecnologias digitais: estão no entre — entre a reprodução das lógicas tecnológicas dominantes e a resistência a elas, ou seja, engajam-se nas estruturas hegemónicas de organização social, curadoria e conveniência ao mesmo tempo em que as desafiam.

Para os autores, "uma abordagem 'popular' para o estudo de algoritmos procura compreender o que as pessoas fazem com eles mas também como as relações entre elas e os algoritmos ficam implicadas na transformação de processos socioculturais" (Siles et al., 2024, p. 91). Concordamos com essa ideia de que a redescoberta do popular abre um horizonte analítico diferenciado de outras abordagens contemporâneas sobre os algoritmos e sobre as plataformas, sobretudo, provenientes do Norte. Tal orientação teórica sugere uma guinada correlata a que ocorreu na pesquisa latinoamericana dos anos 1980 e que impulsionou os estudos de recepção e os usos cotidianos da mídia.

Enfim, a redescoberta do popular dá primazia ao vigor das práticas cotidianas das pessoas, colocando em evidência suas formas de rebeldia e resistência em um movimento de menor ênfase a normatizações, regulações e ordenamentos do mercado, do Estado e das infraestruturas tecnológicas. Daí a necessidade de atentar para os constrangimentos estruturais vigentes na contemporaneidade e integrar à potencialidade dessa problemática noções como a de entorno tecnocomunicativo (ainda que careça de adensamentos via interlocuções com outras teorias, conforme mencionamos) e de tecnicidade.

A tecnicidade na pesquisa brasileira sobre tecnologias digitais

No Brasil, ainda que de modo incipiente, é possível identificar alguns usos da mediação tecnicidade em pesquisas empíricas com variados objetos de estudos. Investigações como a de Escosteguy et al. (2019) e Carrijo (2021) fazem uso dessa mesma mediação e já mereceram nossa atenção em outro momento (Carrijo e Escosteguy, 2023) Neste texto, destacamos o uso dessa mediação como alternativa teórico-metodológica adotada por Knewitz (2009, p. 5) ao reconhecer que estamos vivendo o que ela nomeia de "fase ciber" da cultura, isto é, um momento sócio-histórico em que os processos de produção de sentido estão cada vez mais estruturalmente mediados pela tecnologia. Essa observação vai ao encontro do que destacamos na discussão sobre o entorno tecnocomunicativo e reforça a necessidade de articular as características do contexto sociotécnico às práticas cotidianas dos sujeitos.

A autora vislumbra na tecnicidade um operador capaz de aproximar dois campos de estudo que se conectam nessa situação: os estudos culturais e os estudos ciberculturais. Isso porque tal mediação "assimila [a tecnologia] de forma integrada, isto é, sem aliená-la de todo o sistema intangível de fluxos socioculturais por onde circulam os sentidos" (Knewitz, 2009, p. 7) e consegue abranger tanto dimensões microssociais (referentes a práticas de relação e ao uso imediato das tecnologias) quanto macrossociais (relacionadas aos desdobramentos simbólicos e políticos que a incorporação das tecnologias no cotidiano promove).

Com um propósito parecido de criar pontes entre "teorias sobre cultura, política e comunicação [e as] mais centradas no ambiente virtual", Silva (2018, p. 87) tamb ém recorre à tecnicidade. O autor faz coro à ideia de que essa mediação possibilita conectar inovações das tecnologias às experiências sociais, de modo que a compreensão do refinamento de dispositivos comunicacionais perpassa não só suas características formais, mas também as maneiras segundo as quais esses dispositivos são usados. Em seu estudo sobre as relações entre as lógicas de produção e as práticas de crítica audiovisual no YouTube, Silva (2018) retoma as discussões barberianas associando as mediações com teorias como a convergência midiática e a remediação, e ainda combinando-as com uma metodologia consagrada nos estudos ciberculturais: a análise de redes sociais.

Tanto Knewitz (2009) quanto Silva (2018) utili zam como base o mapa das mediações comunicativas da cultura, proposto por Martín-Barbero em 1998, no qual a tecnicidade articula lógicas de produção aos formatos industriais. Apesar de um mapa não substituir outro (Lopes, 2018), tal teorização foi apresentada em um contexto sociotécnico diferente do atual, em que as "mutações" ainda não haviam sido identificadas como caracterizadoras da experiência social. Quando o mapa de 2017 é publicado (Martín-Barbero e Rincón, 2019), a tecnicidade passa a constituir um de seus eixos centrais, figurando como "mediação básica da mutação cultural" (Pieniz e Cenci, 2019, p. 146, tradução nossa8). Ou seja, é entendida como motor das transformações culturais que reconfiguram a organização social conforme experienciamos hoje.

Por isso, é o emprego dessa abordagem por Winques (2020, 2024) que nos interessa salientar aqui, devido à sua conexão com a problemática posta em evidência neste artigo. A autora apresenta uma releitura dos mapas de Martín-Barbero, primeiramente em 2020, que nomeou "Mapa do Sistema de Mediações Algorítmicas", o qual consiste em "uma tentativa de alinhar os estudos culturais ao contexto contemporâneo, permeado por fluxos algorítmicos e múltiplas temporalidades" (Winques e Longhi, 2022, p. 167). Na versão de 2020, a autora atribui aos algoritmos uma determinada função, integrando-os em um circuito.

Ao investigar práticas de pessoas evangélicas e professores sindicalizados, Winques (2020) detectou que seus processos de produção de sentidos são estruturalmente mediados por algoritmos que fazem parte de uma estrutura de poder, cujas implicações no consumo e na circulação de informações jornalísticas em plataformas digitais são preponderantes. Portanto, os algoritmos assumem a centralidade nesse processo e intitulam o mapa.

Considerando essas imbricações, Winques (2020) mantém as tecnicidades como eixo estruturante do mapa, porém modifica a estrutura barberiana, acrescentando, por exemplo, os algoritmos como mediação que as articulam aos fluxos (noção também reposicionada no mapa, substituindo as espacialidades, que enfatiza a descentralização dos espaços na contemporaneidade). Nesse contexto, os algoritmos são posicionados como agentes centrais nas transformações sociais, extrapolando sua dimensão computacional para mediar, inclusive, os referenciais culturais dos usuários das plataformas digitais. Sustentando a organização social das mediações algorítmicas, a mediação institucional das empresas de tecnologias, donas das plataformas, assume protagonismo nessa proposição. Assim, as institucionalidades compõem o eixo horizontal do mapa com as tecnicidades, o que enfatiza como as questões políticas e económicas corporativas são estruturantes dessa forma de organização social.

Embora seja uma tentativa de reunir "as concepções teóricas dos estudos culturais, das teorias da recepção, dos estudos de plataformas e dos estudos críticos sobre algoritmos" (Winques e Longhi, 2022, p. 167), do nosso ponto de vista, não tomou a questão cultural como estratégica. De modo sintético, o mapa proposto e seu uso, no caso recém-mencionado, tem caráter instrumental e não implica aderência às principais premissas da teoria barberiana.

Contudo, recentemente, Winques (2024) apresentou outra versão e composição das mediações, nomeando-o de "Mapa de Mediações Algorítmicas". De inspiração livre e de natureza ensaística, pretende destacar as complexidades dos "artefatos algorítmicos comunicacionais" e suas "tensões entre materialidades e dimensões simbólicas" (Winques, 2024, p. 89) ou, ainda, tratar os algoritmos como "uma mediação constituinte de sentidos" (p. 92). Essas são pistas que evidenciam e privilegiam uma atenção "ao estudo da agência dos indivíduos com relação aos algoritmos e vice-versa, sem desatender o envolvimento de dinâmicas hegemónicas e con-tra-hegemónicas do poder" (p. 90). Destaca-se, assim, uma adequação à proposição barberiana.

Em relação ao mapa anterior (2020), notam-se duas diferenças: 1) desaparece nominalmente a "submediação" algoritmos, situada entre as mediações "básicas" — fluxos (eixo vertical) e tecnicidade (eixo horizontal) —, sendo substituída por imaginários; e 2) integra-se ao tripé comunicação--cultura-política, originalmente proposto por Martín-Barbero, a economia. Subentende-se da descrição do novo mapa que é no âmbito das tecnicidades que as mediações algorítmicas atuam, expressando-se nas "submediações" narrativas e imaginários, criações que descrevem as experiências sociais dos indivíduos com as tecnologias, profundamente integradas à sua vida cotidiana (Winques, 2024, p. 97). Esse é o direcionamento teórico da nova versão de Winques (2024), que mostra sintonia com premissas centrais dos diversos mapas noturnos de Martín-Barbero, embora não apresente uma aplicação empírica do mapa proposto como no caso anterior (2020).

Ainda são muito escassos os estudos no contexto nacional que enfrentam o desafio de incorporar as contribuições de Martín-Barbero na pesquisa contemporânea sobre tecnologias digitais de comunicação. Contudo, reconhecemos ser esse um caminho profícuo para abordar aspectos tecnológicos e comunicacionais, combinando análises da estruturação das plata­formas com a observação e escuta das pessoas que participam e constituem a experiência sociotécnica contemporânea. Isso, desde que sustente as tensões e ambivalências das disputas políticas e culturais que engendram tais processos comunicativos.

Diálogos com perspectivas centradas nos algoritmos e nas plataformas

Apesar de Martín-Barbero considerar como relevante as estruturas comunicacionais, nas suas dimensões económicas, políticas e ideológicas, sua atenção a esse nível de análise não mereceu maior aprofundamento. Por sua vez, a pesquisa empírica sobre recepção e uso dos meios, linhagem de investigação latino-americana que mais aderiu às premissas barberianas também desatendeu a essa faceta de corte mais socioestrutural e abrangente. Contudo, isso não significa que essa dimensão não possa ser aprofundada e atualizada, integrando a compreensão contemporânea da plataformização na pesquisa sobre as práticas cotidianas com algoritmos.

Considerando cruciais as dinâmicas económicas, políticas e propriamente sociotécnicas das plataformas para a investigação crítica, na medida em que estas estabelecem as condições de existência dos espaços onde se constituem as práticas simbólicas com suas próprias regras, reunimos aqui um conjunto de reflexões que oferecem visões centradas no poder dos algoritmos.

 De modo geral, referendam posições em que os sistemas algorítmicos, construídos segundo diretrizes das empresas que os detêm, orientam e modulam estruturalmente nossos processos de consumo e comportamentos.

Uma primeira abordagem é aquela que se atém às características das próprias tecnologias. Trata-se de investigações que enfatizam o que são esses sistemas e como eles funcionam, abordando-as a partir de sua dimensão de "caixa-preta", isto é, das lógicas próprias de sua constituição sociotécni-ca (Jurno e DalBen, 2018). No caso dos algoritmos, comumente, essas discussões tensionam a estabilidade de tais tecnologias, reconhecendo-as, ao contrário, como instáveis e provisórias (Kitchin, 2017) e, portanto, com lógicas internas altamente complexas, já que mudam constantemente, inclusive de forma automatizada, em processos de aprendizado de máquina.

Em geral, teorizações nesse sentido dialogam com o campo dos Science and Technology Studies e da Teoria Ator-Rede e trazem para o debate as dimensões de agência das tecnologias, chamadas de atores não humanos, cujo refinamento as chancelam como elementos não só facilitadores, mas também transformadores da natureza dos processos de comunicação (Van Dijck, 2013). Com um ponto de vista crítico, também questionam pressupostos de neutralidade e objetividade de tecnologias, investigando as im­bricações entre as diretrizes que orientam a produção e manutenção dos parâmetros segundo os quais os algoritmos operam (Gillespie, 2018). A ênfase recai, então, nas redes sociotécnicas mobilizadas por essas tecnologias.

Essas discussões desembocam em uma segunda abordagem, dedicada às problemáticas relativas ao papel que tecnologias como os algoritmos das plataformas têm assumido na sociedade de forma mais ampla. Striphas (2015), por exemplo, compara os sistemas algorítmicos a censores ou apóstolos da cultura, como se eles detivessem a autoridade para classificar as produções culturais e midiáticas e definir o que é relevante para a sociedade. Argumenta também que a centralidade que sistemas computacionais como esses têm assumido no contexto contemporâneo está consolidando uma "cultura algorítmica", na qual se observam processos de modulação do consumo e do comportamento das pessoas a partir da mediação estrutural desses sistemas tecnológicos.

No contexto brasileiro, investigações sobre plataformização do consumo (Borges, 2024; Valiati, 2020), acessos e filtragem de conteúdo (Araújo, 2018), modulação comportamental de acordo com códigos das plataformas (Machado, 2018), algoritmização do gosto (Sá e Luccas, 2022) e ainda sobre imbricações entre processos de subjetivação mediados por algoritmos (Faltay Filho, 2020) são exemplos desse tipo de abordagem. O interesse incide em como a lógica hegemónica de tais tecnologias interfere de forma geral nas experiências sociais, enfatizando as marcas de uma racionalidade algorítmica (Bruno, 2022).

Um outro pensamento crítico sobre esse entorno contemporâneo advém da economia política da comunicação. Por essa via, a crítica tem enfatizado o capitalismo de vigilância (Zuboff, 2021) e o colonialismo de dados (Couldry e Mejias, 2019) como balizadores dos processos de datificação da vida social. Nesse contexto, as ações dos sujeitos feitas na (e mediadas pela) internet passam a ser monitoradas, armazenadas e processadas de forma automatizada, por conterem em si mesmas informações úteis ao capital. Isso edifica "uma nova ordem económica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas" (Zuboff, 2021, p. 1).

Contudo, para que os dados se tornem acessíveis às empresas e aos seus parceiros comerciais, é necessário instituir não apenas uma infraestru-tura técnica de coleta e processamento, mas também um discurso de validação das práticas de monitoramento de dados pessoais, de acordo com o qual "a vigilância acaba por ser 'útil' para o cotidiano das pessoas e, por isso, ela não é percebida como intrusiva, controladora ou punitiva" (Meireles, 2021, p. 37). Por essa via, constrói-se uma naturalização do monitoramento, por meio de discursos de inevitabilidade e conveniência (Couldry e Mejias, 2019). Essa "ideologia da conexão", segundo os autores, faz parte de uma nova etapa do colonialismo, o colonialismo de dados, cuja força motriz é a exploração económica da vida cotidiana das pessoas feita pelas empresas de tecnologias digitais (Ferreira, 2021; Ricaurte, 2019).

A crítica se adensa quando identificamos que essas empresas são provenientes de países hegemónicos do Norte e atuam de forma global, carecendo  de ajustes em seus serviços, discursos e regulações que considerem as realidades situadas das sociedades que as utilizam. Bolaños (2024) reitera como as demandas locais e as necessidades das populações de diferentes contextos precisam ser consideradas, a despeito da prevalência das plataformas hegemónicas, especialmente para enfrentar dificuldades na elaboração de políticas de desenvolvimento autónomo mais coerentes com aszrealidades situadas9.

Consideramos que perspectivas como estas brevemente apresentadas aqui são centradas no poder dos algoritmos e das plataformas e, por isso, enfatizam especificidades dessas tecnologias, como sua natureza, seu papel na sociedade e o circuito económico que mobilizam. Dessa forma, podem ser acionadas, separada ou articuladamente, para encorpar a chave conceitual do entorno tecnocomunicativo, porque oferecem caminhos para enxergar como se constituem as redes técnicas, económicas e políticas que subsidiam a operação dessas tecnologias. Isso sem perder de vista que a centralidade da análise está nas práticas cotidianas com os algoritmos.

Em síntese, assumimos que plataformas e algoritmos são um conjunto complexo de processos epistêmicos, culturais e sociais (Ricaurte, 2022) e que é preciso articular tais discussões a uma abordagem que se ocupa das práticas dos sujeitos com essas tecnologias. Essa postura evita a adoção de perspectivas universalizantes, que ou desconsideram a agência dos sujeitos usuários nesse contexto, ou, quando a reconhecem, abordam suas possibilidades de forma homogênea e descontextualizada (Milan e Treré, 2022).

Por essa razão, nosso argumento é pelo diálogo com perspectivas centradas no poder dos algoritmos e das plataformas, porém tensionando e des­centrando seu ponto de partida, na medida em que o eixo da abordagem "em fermentação" está nas práticas cotidianas com essas tecnologias. Assim, reivindicamos uma disposição crítica na realização dessa interlocução teórica, capaz de levar em conta as condições locais para a apropriação dos conceitos, sem aplicar ou reproduzir premissas generalistas forâneas para interpretar experiências latino-americanas — o que seria um deslize identificado por Gómez-Cruz et al. (2023) como "tropicalização".

Limite ou ponte necessária

Por diversas vias e autores, é patente a apreciação que os aportes norteamericanos e europeus moldaram o percurso dos estudos latino-americanos em Comunicação (Torrico, 2023). Paulatinamente e em alguns nichos de investigação na área, tais premissas geraram questionamentos e, consequentemente, ganharam visibilidade conhecimentos produzidos na própria região, pelo menos dentro das fronteiras desse subcontinente.

Diante de um crescente movimento de desocidentalização, decolonização e mesmo de internacionalização, a aposta aqui é de reclamar que as contribuições sobre o entorno tecnocomunicativo, a problemática do popular e a mediação da tecnicidade de Jesús Martín-Barbero são insumos para fermentar a pesquisa contemporânea sobre algoritmos e plataformas.

O deslocamento analítico proposto pelo olhar centrado no espaço popular direciona a investigação para as práticas cotidianas com os sistemas algorítmicos em plataformas digitais. A tecnicidade, por sua vez, coaduna-se com tal perspectiva na medida em que pressupõe uma configuração mútua entre características propriamente tecnológicas e práticas e competências cotidianas dos sujeitos com esses aparatos tecnológicos, referendando de modo mais abrangente as relações de coprodução entre tecnologia e sociedade.

Entretanto, a fraca teorização sobre a caracterização do entorno tecnocomunicativo contemporâneo necessita ser encorpada pelas abordagens mais centradas no poder dos algoritmos e das plataformas, provenientes sobretudo do Norte global. Por essa razão, nosso argumento é pelo uso dessas abordagens para adensar essa chave conceitual, tensionando e descentrando seu ponto de partida na medida em que o eixo da abordagem "em fermentação" está nas práticas e usos cotidianos dessas tecnologias, situadas em contextos particulares. Essa é uma ponte necessária para dar conta do núcleo motivador da proposta de Martín-Barbero: as articulações entre comunicação, cultura e política.

Contudo, é imprescindível manter à vista, em perspectiva histórica, que a América Latina "não conseguiu concretizar um autêntico diálogo com o externo, reivindicar o que é autóctone ou reclamar, sem complexos, suas contribuições mais originais", assim como "também não ocorreu um reconhecimento equilibrado deste legado além de suas fronteiras" (Barranquero, 2011, p. 2). Levando em conta essa situação, o diálogo entre teorias requer deslocar as contribuições do Norte global, tomando como ponto de partida saberes locais — nesse caso, as contribuições de Martín-Barbero — para produzir conhecimento contextualizado.

Agradecimentos

Agradecemos os comentários dos avaliadores e dos revisores, bem como as interlocuções com pares latino-americanos.

Financiamento

Este trabalho foi realizado com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, na modalidade de bolsa de produ­tividade em pesquisa, 310430/2021-6, "Comunicação e estudos culturais: genealogias e trajetórias", e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, na modalidade de bolsa de doutorado, 88882.461695/2019-01, "Jovens e algoritmos de recomendação: apropriações cotidianas da personalização no Instagram".

Declaração de interesse concorrente

Não se aplica.

Declaração de ética e consentimento

Não se aplica.

Declaração de disponibilidade de dados

Dados adicionais que sustentam os resultados deste estudo podem ser solicitados às autoras pelos e-mails informados.

Consentimento para publicação

Não se aplica.

Divulgação de IA

Não se aplica.



Notas

1 O uso do termo remete à clássica edição do Journal of Communication, de 1983, Ferment in the field, em que se discute as contribuições europeias e norte-americanas, vistas naquele momento como "áreas em fermentação", para a emergente pesquisa em comunicação. Esse volume teve notável papel formativo na pesquisa latino-americana, flagrando nossa vinculação hierárquica às teorias do Norte global. Aqui, a pretensão é retomar nossa própria produção de conhecimento como fermento para impulsionar a pesquisa contemporânea sobre algoritmos e plataformas.

2 Embora a própria nomeação da área (estudos de comunicação digital, comunicação on-line, cultura digital, culturas algorítmicas, plataformização) seja um ato político, aqui, nossa intenção é apenas indicar uma subárea de estudos com forte expressão na atualidade, sem propriamente assumir uma perspectiva teórica. Trata-se de um rótulo para uma linhagem compreensiva de pesquisas. Siles et al. (2024), por exemplo, adotam a denominação "estudo críticos de algoritmos e plataformização", na qual, no nosso entendimento, está implicada uma determinada abordagem.

3 A set of epistemic, cultural and social processes that transform and reconfigure the relationships between subjects, subjects and objects and objects themselves.

4 A discussão sobre o popular em Martín-Barbero é recuperada via Escosteguy (2010), em que esse debate está associado aos estudos culturais em uma versão latino-americana e outra, britânica.

5 Mignolo (2007) entende que as teorizações de Martín-Barbero diferem da abordagem decolonial porque, ainda que enfatizem experiências periféricas (na América Latina), pertencem à perspectiva da modernidade e acionam autores da tradição europeia. No entanto, estamos de acordo com a crítica de Restrepo (2015) ao reconhecermos a abordagem dos estudos culturais, especialmente a que ele nomeia como primeira geração dos estudos culturais latino-americanos (formada por Martín-Barbero e García Canclini), como um projeto intelectual e político com pautas afins aos estudos decoloniais, embora não se restrinja à denúncia da colonialidade.

6 A cartografia barberiana está expressa em pelo menos quatro diagramas teórico-metodológicos em que distintas mediações são situadas e articuladas entre si. Ver Jacks et al. (2019).

7 Essa dimensão foi traduzida para o português como "intermediação", porém consideramos que esse termo não condiz com a sutileza da proposição barberiana, mais relacionada à ideia de "entre-lugar" (Martín-Barbero, 1987).

8 Mediación básica de la mutación cultural.

9 Um exemplo da mobilização desses conceitos na América Latina é o esforço coordenado por Aparici e Martínez-Pérez (2021), que reúne diversos pesquisadores, especialmente da educomunicação, para discutir a crescente importância da alfabetização computacional crítica. Esse debate busca não apenas capacitar os cidadãos para operar as máquinas, mas também para compreender e questionar as implicações desses sistemas em suas realidades locais.



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