Lócus digital:
um lugar entre tantos outros
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Locus digital:
un lugar entre tantos otros


Locus Digital:
A Place Among many Others

Recibido: 2012-01-11
Aceptado: 2012-02-29

Fabio B. Josgrilberg
Universidade Metodista de São Paulo, Brasil.
fabio.josgrilberg@metodista.br

1 Uma primeira versão deste trabalho foi apresentada no IX Seminário Internacional de Comunicação, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 6 e 7 de novembro de 2007, com publicação de seu resumo. O texto completo, no formato agora apresentado, permanece inédito.

Resumo

O atual período técnico articula relações sociais e objetos técnicos com uma racionalidade que lhe é própria. Com base nas ideias de Milton Santos, Michel de Certeau e Maurice Merleau-Ponty, pretende-se refletir sobre a relação dialética entre as determinações técnicas e as práticas cotidianas dos sujeitos. Destacamos o conceito de lócus digital como um lugar organizado por estratégias que mobilizam sistemas digitais de informação e comunicação, sustentados por uma infraestrutura peculiar de rede distribuída. No lócus digital, os cidadãos e cidadãs estão submetidos a pressões diversas, mas também reinventam a vida, criam espaços. A reflexão sobre a relação dialética entre o lócus digital e a reinvenção de espaços busca evitar tanto o relativismo na compreensão das práticas cotidianas quanto o determinismo tecnológico.

Palavras-chave: TIC, fenomenologia, cotidiano.

Resumen

El actual periodo técnico articula relaciones sociales y objetos técnicos con una racionalidad que le es propia. Con base en las ideas de Milton Santos, Michel de Certeau y Maurice Merleau-Ponty, se pretende reflexionar acerca de la relación dialéctica entre las determinaciones técnicas y las prácticas cotidianas de los sujetos. Destacamos el concepto de locus digital como un lugar organizado por estrategias que movilizan sistemas digitales de información y comunicación, sostenidos por una infraestructura peculiar de red distribuida. En el locus digital, los ciudadanos y ciudadanas están sometidos a presiones diversas, sino también reinventan la vida, crean espacios. La reflexión sobre la relación dialéctica entre locus digital y la reinvención de espacios busca evitar tanto el relativismo en la comprensión de las prácticas cuotidianas como el determinismo tecnológico.

Palabras clave: TIC, fenomenología, cuotidiano.

Abstract

The current technical period articulates social relations and technical objects with a rationality of its own. Based on the ideas put forth by Milton Santos, Michel de Certeau and Maurice Merleau-Ponty, this article reflects on the dialectic relationship between technical determinations and the daily practices of the subjects. The concept of digital locus is emphasized as a place organized by strategies that mobilize digital information and communication systems, all supported by a unique distributed network infrastructure. In the digital locus, citizens are subject to a variety of pressures, but also reinvent life by creating spaces. Reflection on the dialectic relationship between the digital locus and the reinvention of spaces is intended to avoid both relativism in understanding daily practices as well as technological determinism.

Key words: ICT, phenomenology, everyday.

Para citar este artículo / To reference this article / Para citar este artigo
Josgrilberg F. B. Abril de 2012. Lócus digital: um lugar entre tantos outros. Palabra Clave 15 (1), 10-25.

 

A expansão das tecnologias de informação e comunicação (TIC) pelas mais diversas relações sociais é irreversível e suas consequências são indeterminadas. Ainda que se identifiquem certas tendências, os caminhos das técnicas do atual período dependerão de uma série de decisões que deverão ser feitas nas próximas décadas (Benkler, 2006). São opções políticas, econômicas, tecnológicas que se apresentam em meio a jogos mais ou menos explícitos de poder, relações assimétricas em constante tensão com as práticas cotidianas. É nessa ambiguidade que se encontram as brechas para sonhar com modos de uso dos meios digitais de comunicação promotores da vida e da democracia.

Em vista da ambiguidade desses processos, nossa proposta é refletir sobre a indissociabilidade dos objetos técnicos e ações humanas, buscando situar o debate sobre as mídias digitais na discussão mais ampla sobre a vivência fenomenológica da tecnologia, a instituição de significados intersubjetivamente e a presença de múltiplos sistemas técnicos.

Em um singular esforço de alimentar a reflexão sobre os caminhos da chamada Sociedade da Informação, uma produção efervescente de metáforas revela perfis de um mesmo fenômeno, a saber, a presença dos objetos técnicos sob a ação humana em transformação do mundo. Dito dessa forma, o debate sobre as tecnologias de informação e comunicação perde um pouco de seu caráter de novidade para se assentar em um aspecto mais universal da relação dos seres humanos com o mundo. Contudo, é certo que as metáforas à disposição, tais como cibercultura, sociedade em rede, ou mesmo da sociedade da informação, possuem seu valor para a análise dos processos culturais em curso, desde que reconhecidos os seus limites e possibilidades. Nunca é demais lembrar a importância das metáforas na organização social. Assim como no grego moderno metaphorai é sinônimo de transporte público, as metáforas nos levam e trazem, abrindo caminhos para a construção de referências sociais ou mesmo para a reflexão teórica.

A metáfora aqui proposta é a de um lócus digital. Não se tem por objetivo superar as expressões existentes, mas simplesmente se pretende fazer variar os perfis sobre um mesmo fenômeno. Acima de tudo, realiza-se um empenho de produção de significados que se inspira na imagem agostiniana do admirabile commercium necessário à busca da verdade - ou, em nosso caso, de veracidade para se pensar os desdobramentos sociais do uso das TIC.

Entendemos o lócus digital como um lugar organizado por estratégias de poder que articulam sistemas digitais de informação e comunicação, mobilizando as dimensões simbólica e de infraestrutura do atual período técnico. Trata-se de um lugar, entre tantos outros, de realização da vida e batalha pela sobrevivência. Nesse sentido, é reconhecido como uma das autoridades da sociedade contemporânea; uma referência, simbólica e física, que organiza a vida social. Nele, os seres humanos se submetem a pressões e, até mesmo, a determinações diversas, mas também reinventam a vida, criam espaços.

A construção da metáfora nasce de um movimento de compreensão que envolve três momentos, diferenciados apenas para fins de análise, mas que são todos elementos ou polos de relações dialéticas múltiplas:

  1. a relação existencial do ser humano com o objeto técnico;

  2. a relação dos seres humanos com o objeto técnico em um mundo intersbubjetivo;

  3. a relação dos seres humanos com o objeto técnico em um sistema de técnicas.

Apenas para referência, entende-se o conceito de técnica como o conjunto de meios sociais e materiais (objetos técnicos) com os quais os seres humanos criam, percebem e transformam o mundo (Santos, 2002, p. 29).

A compreensão da primeira dimensão -o ser humano e o objeto técnico- remete à análise fenomenológica mais abrangente de nossa relação existencial com o mundo. Para tanto, é fundamental a compreensão do conceito de intencionalidade, conforme a tradição fenomenológica que tem por principal referência o filósofo Edmund Husserl, que teve o seu pensamento desenvolvido nas obras de vários intelectuais como Martin Heidegger, Maurice-Merleau-Ponty, dentre outros.

Na fenomenologia, não é possível reduzir a relação ser-mundo a relações causais conforme certa tradição do objetivismo positivista, ou seja, fazer do mundo um "em si", deixando à exploração humana a tarefa de descrever essas relações; mas também não é possível assumir uma posição intelectualista, que faz do mundo um "para si", em que a crença nos modelos teóricos limita a possibilidade de percepção da complexidade e indeterminação do mundo. Na fenomenologia, ser e mundo são polos dialéticos de uma única relação. A percepção do mundo se dá a partir da evidência do mundo, que é percebido pelo corpo.

Fundado na compreensão da relação entre ser e o mundo que acabamos de descrever, o conceito de intencionalidade recupera a ideia de que toda consciência é consciência de algo. Assim, o ser, no simples movimento corporal ou no uso da linguagem, visa de alguma forma o mundo, faz dele objeto intencional permanentemente. É possível destinar maior ou menor atenção a determinados aspectos do mundo, mas o movimento da consciência em direção a ele é constante.

Por outro lado, ao visarmos o mundo, ele não está aberto a qualquer sentido - façamos aqui uma diferenciação entre sentido, fundado na percepção antepredicativa do mundo, e significado, conhecimento sistematizado em linguagens, categorias ou conceitos. Por exemplo, as diferentes percepções de um objeto translúcido e opaco não são frutos apenas de elaborações intelectuais retomadas de linguagens sedimentadas culturalmente, mas são, também, intuídas a partir de uma característica própria desses objetos. A intuição desses objetos é fundada naquilo que eles têm de sensível, mas não se confundem com eles (Kelkel & Scherer, 1982, p. 23).

Com base no conceito de intencionalidade, Milton Santos elaborou um dos aspectos fundamentais de suas teorias: a relação indissociável entre as ações humanas (ser) e os objetos técnicos (mundo). A "ação é tanto mais eficaz quanto os objetos são mais adequados. Então, à intencionalidade da ação se conjuga a intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da respectiva carga de ciência e técnica presente no território" (Santos, 2002, p. 94).

Exploremos um pouco mais o tema. A percepção do objeto técnico não se dá de maneira isolada. Ao entrar em um escritório, por exemplo, outros elementos rivalizam com o computador. Da porta do escritório, um "todo se faz visão e forma um quadro diante de nós" (Merleau-Ponty, 1975, p. 21). Aos poucos, fazemos diferenciações, estabelecemos contiguidades, exploramos alguns aspectos do ambiente e reprimimos outros. Não se trata, no caso, de uma repressão que permanece inconsciente, mas o aspecto invisível que se faz presente no visível. Naquilo que se revela visível, o invisível já está e sustenta o visível. "O invisível está sem ser objeto, é a transcendência pura, sem máscara ôntica", escreveu Merleau-Ponty (2006, p. 282).

Imaginemos agora o movimento da consciência que faz do computador objeto intencional. Uma vez mais, citando Merleau-Ponty, "o todo se faz visão e forma um quadro diante de nós" e, aos poucos, fazemos diferenciações, estabelecemos contiguidades. Percebe-se o objeto técnico em um horizonte, que abre a possibilidade e, ao mesmo tempo, limita a nossa percepção. Somos afetados pelo computador cuja evidência é um permanente devir. Afeto compreendido como uma "solicitação motivacional" e não um fator causal. A ênfase está na relação dual, na forma de um quiasmo, entre ser e mundo pressuposta pelo conceito de intencionalidade; intencionalidade com sua dimensão pré-reflexiva, mas também como possibilidade de visar o mundo e dirigir a atenção a certos aspectos e não outros (Steinbock, 2004).

A compreensão fenomenológica pode abrir caminhos para a revisão de metodologias de organização dos processos comunicacionais, arquiteturas da informação ou mesmo políticas de uso dos diversos meios de comunicação. Esse tipo de investigação atrai, inclusive, o olhar de pesquisadores com foco na experiência das organizações com objetos e sistemas técnicos (Ciborra, 2002, 2004; Fay, Ilharco, & Introna, 2008). No entanto, essa perspectiva muitas vezes é deixada de lado em favor de análises que privilegiem apenas aspectos discursivos ou sistêmicos da presença das tecnologias. De fato, é razoável reconhecer que a fenomenologia pode não ser a melhor referência teórica para se pensar as relações de poder envolvidas, mas deixar de se tomar em conta a relação existencial dos seres humanos com o objeto técnico é estar cego à gênese de toda significação, a saber, a percepção do mundo pelo corpo; mundo do qual os sistemas e discursos apenas fazem parte, mas não determinam toda significação.

A influência dos objetos técnicos na percepção da realidade também não pode deixar de ser explorada. O objeto técnico não é apenas percebido, mas também se percebe o mundo por ele. Assim como um cego que faz uso de uma bengala passa a perceber o mundo não só a partir das possibilidades perceptivas do corpo, mas também a partir da ponta da bengala, em outras palavras, o instrumento se torna um "apêndice do corpo", "uma extensão da síntese corporal" (Merleau-Ponty, 1975, p. 173), também percebemos o mundo pelas atuais tecnologias de informação e comunicação. Entretanto, de uma perspectiva fenomenológica, há que se destacar que a percepção do mundo pelo objeto técnico remete apenas a uma das possibilidades perceptivas do corpo.

Em outro registro teórico, Marshall McLuhan (1964) explorou, vinte anos depois de Merleau-Ponty, uma hipótese que dialoga com a reflexão merleau-pontyana. Já no título de um de seus livros anunciava os meios como "extensão do homem". Para o pesquisador canadense, "os efeitos da tecnologia não ocorrem ao nível das opiniões ou conceitos, mas alteram a relação dos sentidos ou os padrões de percepção continuamente e sem resistência" (McLuhan, 1964, p. 33). Enquanto Merleau-Ponty fazia referência à percepção do mundo pelos objetos que se tornam "apêndice do corpo" em meio a uma reflexão mais ampla e aprofundada sobre a percepção, McLuhan dedicou-se exclusivamente à questão da tecnologia. Talvez a tendência um tanto determinista de McLuhan não sobreviva ao crivo de uma análise mais detida sobre a relação do ser com o mundo. Porém, deve-se reconhecer que, mesmo com os limites de uma afirmação como o "meio é mensagem", o pesquisador canadense teve o mérito de chamar a atenção para como a tecnologia impõe restrições à percepção do mundo (Miller, 1973, p. 117). Nesse sentido, as ideias de McLuhan abrem um diálogo interessante com a fenomenologia.

No movimento da consciência de perceber o objeto técnico e o mundo pelo objeto técnico, com McLuhan, não se pode deixar de considerar a maneira como uma mídia, em termos materiais, influencia e, por vezes, determina algumas percepções. Na mesma direção, Santos aprofunda a discussão reconhecendo que as técnicas "participam na produção da percepção do espaço, e também da percepção do tempo, tanto por sua existência física, que marca as sensações diante da velocidade, como pelo seu imaginário" (Santos, 2002, p. 55). Em sua crítica ácida do fenômeno técnico contemporâneo, Santos dirige a atenção à racionalidade dos sistemas técnicos. Em suas palavras,

a técnica alimenta a estandardização, apoia a produção de protótipos e normas, atribuindo ao método apenas a sua dimensão lógica, cada intervenção técnica sendo uma redução (de fatos, de instrumentos de forças e de meios), servida por um discurso. A racionalidade resultante se impõe às expensas da espontaneidade e da criatividade, porque ao serviço de um lucro a ser obtido universalmente (Santos, 2002, p. 182).

Não é difícil encontrar exemplos do que foi dito. Basta acompanhar uma partida de futebol pela televisão e no estádio; ver imagens de uma atração turística e visitá-la pessoalmente. Percebe-se o mundo, fazendo da mídia extensão do corpo, mas com as determinações por ela estabelecidas. McLuhan foi ainda mais ousado ao arriscar fazer a ligação da influência da tecnologia com o sistema nervoso. Ainda que não tenhamos condições de explorar esse aspecto, é possível afirmar que os objetos técnicos, enquanto "apêndices" ou "extensões" do corpo, contribuem para a síntese corporal das percepções vividas; pelas várias mídias se articulam vivências que se juntam a outras experiências para constituírem o hábito ou estilo único de cada ser estar ao mundo (Merleau-Ponty, 1975, p. 73).

Também é relativamente simples perceber a racionalidade das técnicas com suas estandardizações, protótipos, normas, na forma de uma "redução" de fatos, de instrumentos de forças e de meios, em detrimento da espontaneidade e criatividade. Basta imaginar este mesmo texto exposto pela atual lógica de tópicos de uma apresentação de slides (PowerPoint, Impress etc.). O problema não é simplesmente condenar ou não essa ou aquela técnica, mas reconhecer os seus limites e possibilidades e qual o impacto na percepção que se tem de um dado fenômeno.

O tema da racionalidade das técnicas já carrega consigo o segundo ponto de interesse deste texto: a relação dos seres humanos com o objeto técnico em um mundo intersubjetivo. A percepção dos objetos técnicos e, por meio deles, o mundo, não se dá de maneira isolada da percepção de outros seres ou da cultura em que se está inserido. O sentido do objeto técnico se amarra a significados instituídos intersubjetivamente, do qual a minha percepção é apenas uma entre outras. Ao fazermos do mundo objeto intencional, ao visarmos o mundo permanentemente, não apenas damos sentido mas também expressamos essas vivências de diversas formas. As múltiplas linguagens de que dispomos são algumas das possibilidades expressivas do corpo. A cultura é sedimentada a partir das várias expressões de mundo dos indivíduos de cada sociedade.

E qual o status da minha percepção e das minhas expressões do mundo diante dos outros? No mundo percebido, nós também percebemos os outros por seus gestos, linguísticos ou não, que se dirigem ao mesmo mundo ao qual eu meu dirijo; vivemos, então, a presença dos outros seres como uma "contradição radical" que coloca em questão a minha percepção do mundo (Merleau-Ponty, 1999, p. 189; 2006, p. 104). O mundo, portanto, é afirmado apenas intersubjetivamente pelo fenômeno da comunicação.

Talvez um exemplo ajude a compreender a questão. Um vídeo sobre informática expressa sentidos percebidos por outros, que retomo e expresso ao meu estilo próprio; estilo como a maneira única de cada um existir a partir de todas as possibilidades perceptivas do corpo e não apenas a partir da linguagem. Nesse vai e vem de expressões, os signos estabelecidos são frutos de um "equilíbrio em movimento", que são permanentemente postos em tensão pela força expressiva de cada indivíduo que retoma esses signos. Portanto, quando percebo um computador, conto com a experiência imediata de estar diante da máquina e explorá-la sem categorias predefinidas, mas também com a linguagem sedimentada culturalmente (o vídeo de informática). Na tensão dialética entre as percepções dos outros que retomo pela linguagem e a vivência que tenho do computador, novos significados emergem. Ao final, o que a linguagem do vídeo nos traz é um significado em permanente sursis, uma imagem pontilhada que preenchemos (Merleau-Ponty, 1975, p. 83).

Apesar da indeterminação inerente à utilização de qualquer linguagem, seria uma grande ingenuidade desprezar a força de certos significados em uma sociedade. Como se sabe, algumas referências simbólicas possuem maior poder de organização social do que outras. Veja-se, por exemplo, as modas anunciadas pela mídia ou os dogmas religiosos. Com a tecnologia não é diferente. Não raramente, uma cultura altamente sedimentada sobre a presença dos meios de comunicação e informação impõe necessidades de se manter atualizado, permanentemente conectado, e até mesmo constrói referências de status social.

A força de alguns significados não deve surpreender nem mesmo ser tomada como algo necessariamente ruim. Não existe sociedade sem "autoridades", ou seja, referências que tornam a relação social possível (Certeau, 1993, p. 17). As autoridades podem ser ruas, indivíduos, construções, paisagens ou os significados necessários à relação entre os sujeitos de um determinado grupo social. Nesse conjunto de autoridades, tudo é cultural e tudo é natural (Merleau-Ponty, 1975, p. 221). A rua não é somente espaço geográfico, mas abrigo, ponto de encontro, de saída ou de chegada. Um prefeito não é apenas um ser, mas um gestor, bom ou ruim, corrupto ou não. As autoridades, naturais e culturais a uma só vez, constituem o solo que nos permite caminhar enquanto grupo social. A força de algumas referências em detrimento de outras é o resultado de relações de poder específicas.

Certeau definiu essa organização de referências por estratégias de poder como lugar, conceito que nos serve de inspiração para a metáfora lócus digital. O lugar pode ser compreendido como uma "configuração instantânea de posições", onde os elementos estão organizados sem tomar em conta os movimentos que nele existem (Certeau, 1990, p. 173). Não há aqui juízo de valor. Todo grupo social organiza os seus lugares, com relações mais ou menos justas, conforme cada caso. O lugar é constituído por discursos, imagens ou mesmo estruturas físicas dotadas de valor simbólico que tornam possível a existência de uma sociedade. Há os lugares organizados por um grupo de adolescentes, mas há, também, os lugares da religião, da mídia, da família, do sindicato, da Sociedade da Informação, de tal sorte que os indivíduos habitam diversos lugares, participando de diferentes relações de poder ao mesmo tempo.

O texto, por exemplo, é o lugar habitado pelo leitor. A língua é o lugar habitado pelo falante. A estrutura de um apartamento é o lugar habitado pelo morador. Os relatos da mídia constroem vários lugares habitados pelos receptores. As gírias e os gostos musicais criam o lugar onde o grupo de adolescente habita. Uma investigação poderia descrever a estrutura textual, a planta do apartamento, os discursos da mídia ou mesmo as referências simbólicas do grupo de jovens. No entanto, o lugar não é necessariamente descrito pelo especialista, mas reconhecido, de maneira geral, pelos que nele habitam.

O lugar possibilita a existência social de cada sujeito. Ele está lá, organizado a partir de relações de poder que constroem as autoridades necessárias à organização do grupo ou sociedade. Contudo, o habitar do lugar não é apenas se submeter à reprodução social dessas referências. Há um movimento dinâmico, incessante, silencioso, que reinventa as referências do lugar, cria espaços. Para Certeau, o espaço remete a um "cruzamento de movimentos", trata-se de um "efeito produzido por uma série de operações" que se dão a partir do lugar (Certeau, 1990, p. 173).

Os movimentos que criam espaços, há que se perceber, não sistematizam seus percursos em relatos facilmente identificáveis. O conceito aponta para o "lugar praticado"; uso das referências do lugar. A moda veiculada pelos meios de comunicação que se reinventa em filigrana nas ruas das cidades e acaba por criar um novo estilo é um exemplo. Mas onde estaria a brecha para a reinvenção dos lugares, de criação dos espaços? Certeau desenvolveu sua análise com ênfase na reflexão sobre o uso da linguagem, via Ludwig Wittgenstein, Émile Benveniste, retórica, entre outras referências teóricas, e na valorização das relações orais de comunicação e da memória. Porém, é pela fenomenologia que amarramos suas ideias à discussão apresentada neste texto. Logo após definir o conceito de espaço, sua primeira referência foi ao pensamento de Merleau-Ponty, recuperando a ideia de "espaço antropológico" (Certeau, 1990, p. 173). Ao explorar o assunto, Certeau sugeriu que "há tantos espaços quanto experiências espaciais distintas", numa citação direta à Fenomenologia da Percepção (1975). "A perspectiva é determinada por uma 'fenomenologia' de existir ao mundo" (Certeau, 1990, p. 174).

Voltemos, então, à questão da técnica. O conjunto de referências simbólicas e físicas que compõem e organizam os processos comunicacionais contemporâneos, sustentados pelas tecnologias digitais, organizam um lugar. Não se trata apenas da infraestrutura de telecomunicações, mas de toda uma variedade de significados sedimentados em torno dos diversos objetos técnicos e das relações sociais que se tornam possíveis por meio deles. Fazem parte desse cenário os diversos relatos sobre a globalização, especialmente no que se refere às dinâmicas econômicas em jogo. A configuração de todos esses elementos forma o lócus digital, ou seja, um lugar construído a partir de relações de poder específicas, com especial destaque para a atuação dos grandes grupos multinacionais de mídia, telecomunicações, hardware e software. Vale ressaltar que se trata de uma metáfora de utilidade estritamente analítica. Os limites do lócus digital são fluidos, pois, como se sabe, a realidade social é indivisível.

Apesar da capacidade de organização do lócus digital, a experiência que dele se tem não está restrita às referências promovidas pelos atores que possuem maior força de articulação. Os indivíduos comuns criam espaços em um movimento cotidiano e silencioso que, muitas vezes, força a revisão das articulações de poder. A mesma digitalização que favoreceu o barateamento da produção fonográfica alimentou a troca de arquivos de áudio pela internet por tecnologias peer-to-peer e, agora, colocam essa indústria em risco. As tecnologias de transmissão de dados por fibra ótica ou satélite colocam em cheque o próprio negócio de telecomunicações.

Poder-se-ia argumentar que a organização da internet, como grande infraestrutura de suporte ao lócus digital, favorece a criação de espaços por sua organização em rede distribuída. Ao menos do ponto de vista tecnológico, todos os pontos recebem e enviam informações. No entanto, a suposta igualdade de condições dos pontos é inverossímil. A internet não é um mundo à parte, pois está submetida a jogos políticos sobre a sua gestão, vide a discussão em torno do papel da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN) e a influência norte-americana; submete-se a acordos internacionais de direitos autorais que, em geral, beneficiam muito mais as grandes estrelas e os grupos de mídia; é objeto do interesse comercial das empresas de telecomunicações; há problemas de invasão de privacidade por motivos comerciais e em nome da segurança nacional, dentre outras questões. De fato, a existência da rede é inseparável da questão do poder. A nova divisão do trabalho atribui papéis privilegiados na organização do conjunto de sistemas de ações e sistemas de objetos (Santos, 2002, p. 270). No mais, a própria participação dos que estão conectados está sujeita a múltiplos fatores. A condição de participação de cada ponto da grande rede é determinada por velocidades distintas (Santos, 2002, p. 267). Em geral, as grandes corporações de atuação global tiram maior proveito do lócus digital do que o cidadão comum.

Apesar de todas as forças políticas, econômicas e culturais em torno do lócus digital, os usuários comuns, conectados ou não, reinventam esse lugar. A criação de espaços é fruto da relação dialética entre o mundo sedimentado culturalmente e a experiência imediata dos objetos técnicos. A intuição das ferramentas de organização da informação e comunicação se dá em um todo percebido onde os vários elementos se apresentam e rivalizam.

Como foi observado, os sentidos possíveis da tecnologia no lócus digital são instituídos a partir da tensão entre a intencionalidade dos objetos técnicos e da intencionalidade das ações humanas. A intencionalidade dos objetos técnicos se alimenta de uma racionalidade que se apoia no conhecimento científico, que serve às várias modalidades e etapas da produção (Santos, 2002, p. 233). A intencionalidade das ações humanas é um movimento da consciência, que conta com a linguagem sedimentada culturalmente sobre a tecnologia, mas que também institui o sentido a partir de um todo de significações vividas e da evidência que se revela em cada objeto técnico. Se também forem tomados em consideração os fatores de indeterminação intrínsecos ao uso da linguagem, conclui-se que o uso da tecnologia está longe de ser simples e unicamente reprodução social de relatos hegemônicos.

Na riqueza da experiência cotidiana, as relações orais, a memória local e a força das significações expressas intersubjetivamente por uma multiplicidade de percepções do mundo e da tecnologia abrem uma gama de possibilidades de significados incontáveis. Exemplos desse movimento criativo e silencioso podem ser encontrados nas brechas do lócus digital. Seja nas ruas de Bogotá, onde cidadãos e cidadãs comuns fazem uso informal do celular para vender minutos de conversa, como se fossem telefones públicos, ou em movimentos de redes sociais de produção de conteúdo colaborativo, alimentado por motivações pouco conhecidas, que podem alterar radicalmente as premissas econômicas vigentes até o último século (Benkler, 2006).

Por último, e assim chegamos ao terceiro ponto, as técnicas se apresentam fundamentalmente como um sistema. A cada período histórico, um conjunto de técnicas adquire certa hegemonia graças a sua capacidade de articular os elementos materiais e sociais de uma sociedade (Santos, 2002, p. 176). Na experiência brasileira do lócus digital, técnicas de distintos períodos entram em tensão. Vive-se em "tempos mistos" em que o pré-moderno, o moderno e o pós-moderno convivem (Calderon, 1987). Santos chamou de rugosidades a essas formas e "restos de divisões de trabalho passadas (todas as escalas da divisão do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho", que orientam a adoção das novas técnicas (Santos, 2002, p. 140).

As rugosidades são tanto sociais quanto materiais. Na educação, "os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas" orientam a incorporação do computador à escola. Instala-se uma divisória pré-fabricada de madeira no refeitório para fazer um laboratório, ocupa-se o espaço que era da brinquedoteca, invade-se a sala dos professores (Josgrilberg, 2006, p. 89). Na relação com os alunos e as alunas, até as docentes que não sabem informática imaginam caminhos simplesmente a partir de sua experiência como educadoras. A memória local, material e simbólica acaba por guiar, indicando as possibilidades e limites, a adesão dos novos objetos técnicos ao território.

E quais outras técnicas fazem parte do sistema em que se insere o lócus digital? Com efeito, a experiência do lócus digital não pode ser reduzida apenas àquelas técnicas que fazem uso do conjunto de objetos técnicos movidos pelas linguagens digitais. Sempre serão articulados outros saberes sociais e materiais que resistem e, ao mesmo tempo, criam espaços em meio à racionalidade e às determinações físicas das tecnologias de informação e comunicação do atual período histórico.

A experiência do lócus digital, a título de síntese provisória, remete às indeterminações da presença do ser humano no mundo de uma maneira geral. Sob esse aspecto, não obstante a novidade das tecnologias digitais, muito do que se diz sobre as mudanças das relações humanas carrega elementos primordiais que se repetem independentemente de períodos técnicos. Talvez a maior transformação esteja na racionalidade das atuais técnicas. O movimento da consciência, do corpo, que faz do mundo objeto intencional, permanece como um elemento universal da existência humana. A partir desse movimento do corpo, o mundo, e nele a tecnologia, é afirmado intersubjetivamente graças ao fenômeno da expressão que sedimenta significados culturalmente. Não se faz aqui diferença entre natural e cultural. Tudo é natural e cultural. O conjunto de significados organiza os meios sociais, que se articulam aos meios materiais, e dão origem às várias técnicas. Todos esses elementos constituirão aquilo que chamamos de lócus digital.

A organização do lócus digital, tal como foi descrita, obedece às mesmas motivações da organização de outros lugares - da religião, da escola, da mídia, da família, entre outros. Sendo assim, o lócus digital nada mais é do que um lugar entre outros de recriação da vida. Todos são lugares que estabelecem suas autoridades por força de estratégias sustentadas por relações de poder específicas.

Talvez a ideia de lócus digital tente estabelecer "muros" que não condizem com o real. Isso é inevitável. Tais divisões são úteis à organização de referências, mas não dão conta da complexidade das relações sociais. As outras metáforas, cibercultura, Sociedade da Informação, Sociedade em Rede, sofrem do mesmo problema. Todas carregam o mal de direcionar a análise com algum privilégio aos objetos técnicos. Contudo, todas possuem o seu valor, desde que reconhecidos os seus limites. Cada uma, ao seu jeito, faz variar os perfis do fenômeno que é a presença dos objetos técnicos sob a ação humana em transformação do mundo. O esforço aqui empreendido foi simplesmente o de situar a experiência das TIC no que há de comum com as demais experiências existenciais do mundo.



Referencias

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